EXPERIÊNCIA
Esse Cartão/Desenho será registrado e repetido do Concurso 403 até o Concurso nº 1000 ou quando a loteca mudar de formato ou porventura vier a fazer 14 pontos.
Nadson Ruas em 02/03/2010
CARTÃO PADRÃO
Concurso/Pontos
Conc. 403= 9 pontos- Conc. 404= 6 pontos- Conc. 405=
POBRE MILLIONÁRIO
Há 35 anos Nivaldo ganhou uma bolada na loteria esportiva, hoje é um excluído
A história de Nivaldo Eduardo, um dos primeiros milionários com a Loteria Esportiva no Brasil, que hoje mora na rua e sofre com hanseníase
Era uma vez um jovem de 20 e poucos anos na idade e nas prioridades de vida, estômago e veias sempre calibrados pelos melhores uísques que o dinheiro pode comprar, cercado pelas melhores mulheres cuja companhia pode ser alugada, certo de que ser um nababo é uma condição perene como ser um diabético, por exemplo. Pois aquele moço, que viajou do padrão de assalariado para a rotina de milionário apresentando um bilhete com o placar certeiro de 13 jogos de futebol, agora é este homem abandonado na região do Aquidabã, sobrevivente das migalhas de quem deixa um carro estacionado aos seus cuidados. Nivaldo Eduardo dos Santos, um dos primeiros milionários do Brasil com a Loteria Esportiva, aos 62 anos, perdeu de goleada uma partida em que enfrentou a soberba.
O conto de fadas que nas histórias da carochinha persiste até alguém ser feliz para sempre para Nivaldo durou, no máximo, seis anos. E seu maior pecado foi apenas ter ficado rico repentinamente com 27 anos de idade. “Que experiência que eu tinha?” A bolada recebida por Nivaldo equivaleria hoje a um pouco mais do que R$6 milhões, valores atualizados pelo Índice Geral de Preços ao Consumidor, da Fundação Getúlio Vargas.
Dinheiro suficiente para comprar mais de 300 carros populares, ou cerca de 60 apartamentos de três quartos em um bairro de classe média de Salvador, ou ainda 950 mil sanduíches Big Mac. De certa forma, o prêmio foi torrado nesse tripé: carro, moradia e gastronomia, além de sessões de um hedonismo proporcional a sua conta bancária.

Credita toda a sua ruína a investimentos malfadados em letras mortas e sociedades em negócios falidos, principalmente na instalação do primeiro check-up eletrônico para veículos em Salvador, a Oficina Auto Elétrica 2001, nos Dendezeiros, que originou processos trabalhistas dos quase 20 empregados e uma dívida com a Justiça, que ele precisou pagar cumprindo pena na detenção. Mas parece tomado de uma conveniente amnésia que o faz esquecer dos esbanjamentos em até cinco Dodge Dart ao mesmo tempo na garagem e que se algum arranhasse a lataria no meio-fio, ele providenciaria passar adiante e comprar um novo na sempre solícita concessionária. E não faz questão nenhuma de mencionar que foi o responsável pela emancipação imobiliária de grande parte das mulheres damas do Pelourinho, que conseguiram comprar casas próprias graças a sua generosidade de cliente priápico e bem-dotado financeiramente.
Na fase boa, fazia da ponte aérea Salvador-Rio de Janeiro um percurso tão banal como ir do Farol da Barra até a praia de Stela Maris. Se tinha jogo do Bahia no Maracanã, pagava a viagem de 20 amigos, de avião, para a capital carioca. Nivaldo já foi assíduo companheiro das mulatas de Sargentelli, hoje vive na sarjeta.

Frustração oculta
É do tipo que insiste nunca ficar arrependido, frustrado ou saudosista do período de fausto. Só que todas as suas narrativas querem provar o contrário. Lembra com exatidão o valor do prêmio (2,976 milhões de cruzeiros novos), a data da extração (16 de julho de 1972) e até o número do concurso (nº 96, já que a loteria tinha sido criada em abril de 1970). É como aquele namorado que teima em dizer não sofrer com o fim do relacionamento, mas não esquece o dia em que começaram a namorar, a roupa que ela estava usando e até o perfume com aroma de pêssego misturado com alfazema e uma leve fragrância de pasta de dente, cabelos lavados com xampu de babosa.
Antes, podia gastar o equivalente a R$1 mil por dia que não pensava em pobreza. Hoje, precisa dormir num albergue na Barroquinha e batalha por uma aposentadoria por invalidez. Como se não bastasse a desgraça monetária, Nivaldo ainda é hanseniano. Os dedos encolhidos e parecendo estar pela metade, a pele descascando em úlceras brancas e secas dão os contornos miseráveis de um corpo sendo carcomido pela doença, enquanto a alma é corroída por lembranças. A diferença é que a primeira, cientificamente chamada de hanseníase, é perfeitamente curável com os medicamentos que ele toma. O segundo mal-estar é de difícil tratamento e um dos principais sintomas é o murmúrio reincidente que se ouve como um suspiro: “Que experiência que eu tinha?”
O novo-pobre fala com a boca mole, desdentada, também ela hipotecada pela miséria. Tinha a maioria dos dentes de ouro e quase todos foram extraídos para pagar os estertores de sua riqueza. Os primeiros foram trocados por uma dívida, já os últimos serviram para pagar comida.

Já foi vizinho de craques do Flamengo, nos apartamentos de Ipanema, hoje passa a maior parte do tempo ao lado do casal Ivan e Maria, que estendem um lençol de mendigos na calçada e colocam o filho Ivanzinho como refém e vetor da sensibilidade alheia. Garante não ter arrependimento. “Se tivesse, me suicidava, como já vi muita gente se jogando de carro da ponte Rio-Niterói”.
‘Oreia’
Nas redondezas do Terminal do Aquidabã, a história desse ser humano falido é de domínio público. Honório, o proprietário da farmácia que vende os medicamentos de hanseníase, indica seu local de trabalho diário. Seu Careca, o veterano dono do bar, com quatro décadas de Aquidabã, foi o principal confidente das memórias cheias de dinheiro e aventura de Nivaldo. Ele não trabalha mais no balcão, mas passou todos os capítulos para o filho Roberto. E mesmo assim, perguntar por Nivaldo é o mesmo que nada. É só falar no milionário da loteria que todos se lembram: “Ah, é Oreia”.
Com os lóbulos da orelha alargados e amolecidos, como se fossem os lábios de índios deformados por rótulas da tradição, Nivaldo deixa mais do que boas histórias no convívio com os comerciantes da região. Às vezes, ele larga, involuntariamente, uns pedaços de carne pelo balcão.
Dos nove filhos que teve com mulheres diferentes, cinco já morreram. Dois deles ainda aparecem para ver o pai e o tratam como... leproso. São também desvalidos que só fazem reclamar do fato de ele ter perdido uma fortuna. Nos poucos comentários que elaboram, apenas dizem que estariam melhor de vida se este não fosse tão perdulário. Mas é claro que não dizem com essas palavras. Preferem termos como “imprestável, vagabundo e irresponsável”. A companheira mais fiel foi a última mulher, também uma renegada social, que se apoiavam mutuamente na vida de rua. Morreu atropelada há três meses no Aquidabã e Nivaldo não teve direito a receber nenhum tipo de seguro.
É difícil Nivaldo admitir, mas continua fazendo uma fezinha. Ele vigia o carro do dono da banca da Paratodos, que se tornou amigo e confidente, Ricardo José, e quando este vai pagar R$0,50 ou R$1 pelo serviço Nivaldo pede que jogue na centena ou no milhar. Em mais de 10 anos de hábito seria natural que o ex-milionário ganhasse uns trocados no bicho (apostando no macaco ou na zebra), mas isso nunca aconteceu. “A sorte bateu uma vez na vida dele e pronto. Ele não soube aproveitar”, condena Ricardo.
É também uma visão cartesiana de uma trajetória. O protagonista não acha o mesmo. Quando o álcool do uísque vagabundo ou do conhaque começa a fazer efeito, ele desdenha dos interlocutores na roda onde o papo tem invariavelmente o mesmo julgamento moral: “Como é que você foi desperdiçar isso tudo?” Nivaldo encerra o assunto de forma taxativa: eu aproveitei tudo e bem, vocês vão ter três vidas e não conseguirão gozar tudo que eu tive.
Realmente, deve ser um cansaço repetir sempre a mesma história, responder sempre as mesmas perguntas sobre como é poder comprar qualquer carro, qualquer bebida, ou quase qualquer mulher na hora em que se quer. Por outro lado, é o momento em que Nivaldo se sente vivo, na oportunidade de recordar, de sensibilizar, de oferecer ao outro uma viagem mental por todos aqueles caminhos que ele percorreu em carne e osso. Curtiu a vida igual a uma cigarra daquela fábula sobre ser precavido ou extravagante. Escolheu ser a personagem de quem todos sentem pena no final. “Mas que experiência que eu tinha?”
QUE ESSA HISTÓRIA SIRVA DE EXEMPLO PRA TODOS QUE PENSAM EM GANHAR UM GRANDE PRÊMIO NAS LOTERIAS.
QUANDO ACONTECER, QUE GASTE E GUARDE O PRÊMIO COM PARCIMÔNIA.
A Loteria Esportiva, popularmente chamada de “Loteca” é o mais antigo dos concursos de prognósticos promovidos pela Caixa Econômica Federal (CEF). Tudo começou em 19 de abril de 1970, quando aconteceu uma rodada experimental no antigo Estado da Guanabara. O jogo mínimo custava dois cruzeiros novos, com um duplo, o jogo com um triplo custava três cruzeiros novos. O prêmio foi fixado em 200 mil cruzeiros novos, com cem mil bilhetes concorrendo. Para ter direito ao prêmio, o apostador precisava acertar os 13 jogos selecionados pela agência “Sport Press”, contratada pela CEF. Ninguém conseguiu. Mas oito apostadores bateram na trave, e foram premiados com doze pontos.
Depois disso, outras rodadas experimentais foram realizadas: em 3 de maio, também na Guanabara, e em 17 de maio, em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Oficialmente o concurso teve início em 7 de junho daquele ano. Curiosamente foi nesse concurso que pela primeira vez foram acertados os 13 pontos. Já o primeiro apostador a ganhar o prêmio sozinho foi Gilberto Furtado Medeiros, no teste número 5, realizado em 28 de junho, mas sem marcar os treze pontos. Ele errou apenas um jogo, num teste que teve oito empates.
Naquela época não existia a avançada tecnologia de hoje. Era preciso preencher um cartão que era entregue na casa lotérica, que usava uma máquina manual da IBM, chamada “Port a Punch”, para furar dois cartões, sendo que um ficava como comprovante com o apostador. No domingo, depois de finalizados todos os jogos, um computador da CEF levava 17 minutos para processar as apostas, lendo cartão por cartão até encontrar os premiados. Nove pontos era o mínimo para o prêmio ser rateado. Depois, seguia com o mesmo processo até achar cartões com 10, 11, 12 e 13 acertos. Quando algum jogo não era realizado, na segunda-feira acontecia um sorteio e também o processamento.
A Loteria Esportiva em pouco tempo transformou-se em uma verdadeira coqueluche nacional. Os valores pagos a cada semana eram milionários. Nas casas de apostas as filas eram cada vez maiores. Afinal, quem não gostaria de ficar rico da noite para o dia?
Neste artigo vamos mostrar como algumas pessoas lidaram com as fortunas ganhas. O maquinista Jovino Viriato do Carmo ganhou em agosto de 1970, 2,9 milhões de cruzeiros, ou R$ 5,4 milhões de hoje. Seu primeiro ato como novo milionário foi comprar uma fazenda em Vassouras, no Médio Paraíba fluminense. Sem experiência na atividade rural, acabou contraindo muitas dívidas. Alguns anos depois foi obrigado a vender a fazenda, para honrar compromissos e cuidar do filho, viciado em drogas. Morreu pobre, em 2000.
Um dos casos mais conhecidos foi o de Eduardo Varela, o “Dudu da Loteca”, que ficou milionário de uma hora para outra. Em maio de 1972, no teste 85, ele acertou uma “zebra” inesperada no jogo entre Corinthians e Juventus, no Pacaembu. O Corinthians tinha 95% das apostas, enquanto o “Moleque Travesso” vinha de cinco derrotas consecutivas. O meia Brecha, ao marcar o gol da vitória grená por 1 X 0, encheu os bolsos de “Dudu”, que ganhou nada mais, nada menos, do que 11,6 milhões, aproximadamente R$ 18,2 milhões.
Com 23 anos de idade e um “caminhão” de dinheiro ele comprou casas e apartamentos, um deles na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, um dos endereços mais caros do País. Sem experiência em negócios, acabou investindo altas cifras em dois hotéis em Campos de Jordão (SP), que acabaram falindo. Isso não o deixou pobre. O pior viria depois, quando se separou da mulher. Ele havia feito outra “burrada”, ao colocar quase todos os imóveis, inclusive o da Vieira Souto, no nome do sogro. Com a separação, perdeu tudo. Sobraram apenas duas salas no centro do Rio de Janeiro e um imóvel em Itaipava, região serrana do Rio. Na época, o ex-milionário trabalhava como funcionário de uma corretora de valores.

Já o comerciante Mário Alberto Ronconi, de Santa Tereza, no Espírito Santo, ganhou em novembro de 1972, 14 milhões de cruzeiros, o equivalente a R$ 20,4 milhões de hoje. É verdade que ele não ficou com toda essa grana. Teve que dividir com mais 18 amigos, com quem havia feito um bolão. A sua parte, ele aplicou num fundo de investimento, mas se deu mal. Seis meses depois a inflação já havia acabado com metade do prêmio.
Com o dinheiro que restou, entrou como sócio numa rede de supermercados. Outra decepção, mais perdas num prazo de seis meses. Sem mais alternativas teve que sair da sociedade. Com as sobras do prêmio comprou um posto de gasolina, que mantém até hoje e lhe garante uma estabilidade financeira.
Final triste teve o apostador baiano Francisco Portela, que em abril de 1974 ganhou 14,7 milhões de cruzeiros, mais ou menos R$ 15,9 milhões em valores atuais. Ele aplicou o dinheiro na construção imobiliária em Salvador e em seguida foi a falência. Hoje, mora nos Estados Unidos, onde trabalha como funcionário de um escritório de contabilidade.
Ainda em 1974, o mineiro José Santana da Silveira, maquinista da siderúrgica Belgo-Mineira apostou 2 cruzeiros na Loteria Esportiva e embolsou o equivalente a 2,5 milhões de dólares, uma montanha de dinheiro. Nos primeiros dias ele tratou de ajudar a família, comprando uma bonita casa, um terreno e uma fazenda para criação de gado. Mas o dinheiro que sobrou, foi mal aplicado. Emprestou para pessoas que além de não o pagarem, fugiram da cidade.
Isso contribuiu para que adoecesse, vindo a falecer ao início de 1999. A viúva, dona Teresinha herdou R$ 15 mil numa caderneta de poupança, uma casa que está à venda por R$ 180 mil e uma mala cheia de promissórias e cheques sem fundo.
O boiadeiro Miron Vieira de Souza, de Iporá (GO), faturou sozinho 22 milhões de cruzeiros, hoje cerca de R$ 16 milhões no Concurso 254 da Loteria Esportiva, em setembro de 1975, na época considerado o maior prêmio da Loteca e do mundo em concursos de prognósticos. Ele estava de aniversário e ganhou um presente para ninguém botar defeito. Sua primeira compra depois de se tornar milionário foi uma dentadura.

Depois adquiriu terras que se espalhavam até onde a vista alcançava, com quilômetros de cerca e centenas de bois. Um pequeno império. No começo da vida milionária passou por momentos difíceis, quando ainda desacostumado com tanto dinheiro, pagava banquetes e noitadas para os amigos. Ainda teve tempo de se recuperar. De lá pra cá, ainda ganhou quatro vezes na loteria, mas todos os prêmios foram baixos. A última vez foi na Copa de 1998, cerca de 6 mil reais que foram aplicados na compra de dez bezerros. Hoje, Miron vive feliz com a família, tendo dividido os bens com os filhos e netos.
O gaúcho Paulo Tadeu Stolfo, funcionário de uma marmoraria em Santana do Livramento jogou 1 real e ganhou o correspondente a 5,4 milhões de dólares em 1995. Mudou-se com a família para um apartamento dúplex de cobertura, comprou um carrão importado, montou uma fábrica de produtos de couro e retomou o ritmo de vida que tinha antes do prêmio.
Joaquim Dias Chaves, um carroceiro da cidade de Assis, no interior de São Paulo, que vivia com meio salário mínimo mensal para sustentar sua família de cinco filhos, tem história parecida. Acertou a Supersena em 1996. O prêmio foi correspondente a 152.000 dólares. Joaquim é analfabeto. Depois da notícia de sua sorte, foi procurado por muita gente. Tinha mulher convidando para sair, vizinho pedindo dinheiro emprestado. Mas ele soube resistir: comprou um sítio, três casas para a família e uma chácara. Aos 69 anos de idade, continua levantando da cama de madrugada para lidar com o gado e cuidar de suas terras.
Em julho de 1977, quando tinha apenas 19 anos de idade, o agricultor Antônio Donizeti acertou na Loteria, faturando 16,1 milhões de cruzeiros, hoje mais de R$ 20 milhões. Em três anos ele estava literalmente “quebrado”, havia gasto quase tudo com mulheres. Sorte sua é que antes das noitadas de farra, comprara um pequeno sítio em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres de Minas Gerais, onde nasceu e mora até hoje e planta feijão e milho.
É MEUS AMIGOS, PRA QUEM NÃO SABE SE PROTEGER. "DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL". |