maior se tornou a urgência de viver quando descobri que já não estavas mais aqui. tua partida, ainda que incômoda, acabou por gerar, à minha revelia, a possibilidade de outras chegadas. de ti restou algum ruído oculto em algum canto esquecido da casa, que agora se transmuta em outra voz. de ti somente um vestígio, uma cor na minha roupa, um fio de cabelo branco que o espelho me mostra. uma ruga em teu rosto quando sorrias, que ressurge no comercial de tv, no outdoor, no encarte do supermercado e que rápido se desfaz ao mudar de canal, ao dobrar a esquina. a certeza do vão que esta ausência em mim ocupa agora é também o espaço livre para outras construções. às vezes quase não penso em ti, como se nunca tivesses existido, como se eu já não te esperasse mais. quem pode negar que fui eu que te inventei? que necessidade tenho em ouvir a tua voz se o silêncio a reproduz e me restitui a minha própria voz? embora estejas no corpo das outras que busco, nos bares, nas baladas, nos puteiros, a noite cega minha visão e te desintegra pela manhã. embora estejas atrás de cada porta, involuntariamente, cada mentira que legitimo segue apagando o teu nome. sem querer me deste as chaves da prisão que em ti encontrei.


