o tempo acordou seus sentidos, seus desejos, seu sabor de mulher. alguma coisa dentro dela agora grita, doida, à tarde e pela noite adentro. grita, debaixo de seus poros. debaixo do sol e também sob a mais escura lua. alguma coisa geme, mesmo enquanto dorme e em seu sonho se enovela, tornando a trama da noite mais densa e o tempo mais leve. alguma coisa se propaga no confuso idioma de suas mãos, que buscam alguma coisa que nem ela sabe exatamente o que é, mas que saberá quando encontrar outras mãos. se propaga no cheiro de fêmea que começa a brotar de sua pele e que todos começam a perceber. se propaga no movimento de seus cabelos, indício de sua inquietude. se propaga na essência de sua ansiosa língua em busca do gosto de outra língua e na música que se entrelaça em suas pernas. seus temores antigos e seus terríveis precipícios já não existem mais. há agora portas nunca antes imaginadas e a surpresa que reservam passou a se chamar brinquedo. suas pétalas que agora se abrem lhe imploram a entrega, pois o desejo já é maior que o medo.


