Acordei com essa frase na cabeça, não sei por que. Com o passar dos anos, algumas pessoas e, pelo jeito, eu também, ficam nostálgicas, saudosas de bons momentos. E, às vezes, só nos lembramos de mágoas. Como marcas no gado. Lembro de uma entrevista de Dercy Gonçalves em que ela diz: "Carinho não deixa marcas". Mas, isso pode não ser a verdade com V maiúsculo. Lembro de coisas boas e ruins, e adapto a uma frase de Vítor Belford (isso, ele mesmo, o lutador): "O passado é um cheque descontado, o futuro é um cheque pré-datado, e o presente é dinheiro vivo, 'cash'". Mas, e os cheques sem fundos que nos passaram ?
O ser humano é feito de lembranças, tristezas e alegrias. Resta fazer os depósitos para que os pré-datados não voltem, na conta-corrente do Banco Vida... Colecionar bons momentos, aprender dos ruins e evoluir. Ser um ser humano melhor a cada dia.
Mas, às vezes, custo a acreditar que determinadas pessoas são fruto da corrida vencedora de um espermatozóide mais rápido que outros...
Essa é uma pergunta clássica da psicanálise, tão clássica que virou chacota em um desses filmes de troca de personalidade. A mãe é psicóloga, a filha estudante. E um dia a filha está no lugar da mãe, se utilizando dessa pergunta para se safar da situação de não ser a psicóloga...
Mas é uma pergunta correta e desconsiderada pela maioria das pessoas. Mas, para mim, psicólogo de butiquim, a pergunta seria: Por quê me sinto assim ?
Às vezes fico tão nervoso, ansioso, triste por uma frustração que me esqueço de perguntar a mim mesmo...
Quer saber ? Para com isso ! Não tenho (ou temos) que ficar tão abespinhados, irritados, nervosos, tristes. O rio corre para o mar e vai continuar correndo.
A vaca atolou no brejo ? Daqui a pouco nós vai lá e desatola ela...
E você ? Como se sente em relação a isso ?
Oito da noite. Cinco de Abril. Rua da Carioca engarrafada. Extremamente engarrafada. “Ah, é só uma chuva, Praça da Bandeira enche um pouquinho, todo mundo para...”, pensa Max, na fila do ônibus. Espera. Meia hora, e parece que nada acontece, a não ser a idéia de pegar o metrô. “Não, cheio demais, vou esperar mais um pouco”.
-Desculpe, mas, você vai pro Grajaú?
-Eu gostaria, e você?
-Vou ficar antes do ponto final, Praça Verdun.
-Sei
-Você não acha melhor tentar um ônibus no Passeio Público? Acho melhor, do que esperar aqui só uma linha.
-Pode ser, vamos.
-Como você se chama?
-Carla, e você?
-Max, prazer. (Max estende a mão e Carla o cumprimenta). Vão caminhando com seus guarda-chuvas aparando as lágrimas do céu pelo Largo da Carioca.
-Eu tenho medo de ser assaltada, e você me parece uma pessoa confiável.
-Você diz isso pela minha aparência de “coroa” ou por causa do terno?
-As duas coisas, mas não trate a si mesmo de “coroa”...
-Você deve ter uns 20 e poucos anos, eu tenho 45. Errei sua idade ?
-Não muito, tenho 26. Caramba, olha o trânsito... O que você vai fazer?
-Procurar um bar para fazer hora, me acompanha?
Pararam num bar da Mem de Sá, beberam algumas cervejas, conversam sobre banalidades, observam o trânsito lento como uma procissão.
-Max, é meia-noite, o papo foi ótimo, mas vou tentar voltar pra casa.
Ônibus passam lotados como numa carreata dos desesperados.
-Carla, não vou pegar ônibus lotado. Não agüento imaginar ficar horas em pé.
-A idéia também não me agrada, mas o que vamos fazer?
-Vou procurar um hotel barato para descansar os ossos.
-Vou com você, mas claro, cada um num quarto.
-Cansou das minhas piadas?
-Não é isso, e você me entendeu.
-Ok, você venceu: cada um no seu ‘quadrado’, digo, quarto.
-O que você esperava? “Vamos juntos, meu coroa charmoso”?
-Só estava brincando, Carla, não sou um sátiro.
-Desculpe, é que todo homem é igual.
- Carla, eu não sei a extensão dessa enchente, não para de chover. Eu não estava pensando em um quarto para nós dois. Você não me conhece, não sabe mais que quatro horas da minha vida.
-Você está certo, desculpe...
-Vamos, aquele hotel ali.
Mal se aproximam, e o funcionário informa: - Só tem um quarto, cama de solteiro.
-Fique com ele, Carla, eu vou voltar para algum bar.
Carla pensa, pensa...
-Vai virar a madrugada bebendo?
O funcionário interrompe:
-A rádio informou que está um caos lá fora, tem gente andando quilômetros para chegar em casa.
Max decide, vira-se para Carla e diz:
-Você dorme na cama, eu durmo no chão
E para o funcionário do hotel:
-Você me arruma um colchonete?
-Posso lhe conseguir um cobertor extra, e o senhor usa como colchonete.
-Parece que é o jeito...
Max pega a chave, o ‘cobertor-colchonete’ e Carla parece olhar para ele com alguma ternura.
-Pensei que você iria preferir ficar bebendo.
Max não diz nada
Carla entra primeiro, Max em seguida, tira o paletó, transforma-o num travesseiro, arruma o cobertor no chão, deita-se. Carla o observa.
-Me desculpe pela situação
-Não há culpa, relaxe.
Carla se deita, sentindo compaixão daquele homem que pouco conhece.
-Max?
-Sim.
-Já está dormindo?
-Quase, se você deixar...
-Se você prometer que não vai abusar de mim pode deitar aqui do meu lado, de costas pra mim.
-Não, romântico demais isso.
-Deixe de ser bobo...
-Não deixo. Boa noite. Estamos exaustos demais para pieguices.
-Você é um homem especial, Max.
-Obrigado, mas sou apenas um homem comum, que tem idade para ser seu pai.
-Mas não você não é.
-Com certeza, não.
Carla se levanta, se deita atrás dele, e o abraça.
-O que você está fazendo?
-Isso te incomoda?
-Não, mas, por que não se deita na cama e dorme?
-Estou carente e com frio, só isso...
-Carla, eu tenho uma relação mal-resolvida, e não quero iniciar outra agora.
-Tudo bem, nesse momento só quero o seu calor.
-Mulheres...
Carla se levanta e volta pra cama.
Max se levanta, olha Carla nos olhos:
-Desculpe, não quis afirmar que você é egoísta.
-Eu entendi...
-Vamos fazer o seguinte: Você fica com o cobertor, eu vou embora.
-Não, não faz isso. Deita aqui do meu lado, vamos dormir.
-Tá...
Max se deita ao lado de Carla, ela coloca a cabeça em seu peito.
Conversam mais um pouco e adormecem. Ambos guardam seus sentimentos em alguma gaveta.
Carla acorda pelas 6 da manhã, liga a TV e descobre a extensão do caos.
-Max, acorde, mas, duvido que consiga trabalhar hoje.
-Anh, o quê ?
-Nosso prefeito disse para ficarmos em casa.
-Hã ?
-Isso mesmo.
-Bom vou ligar pro trabalho, se não houver expediente vou voltar pra casa, e você?
-O mesmo...
Tomam café, saem, e voltam para o Largo da Carioca. Encontram um sol tímido, e uma nuvem singular.
-Estranha essa nuvem, comenta Carla.
-É uma altocumulus.
-Como você sabe ?
-Estudei meteorologia, mas preferi ser advogado.
-Ela parece dizer que os tempos serão melhores.
-Tomara... Bom, vou pegar aquele ônibus, Carla. Obrigado pela paciência.
-Me dê um cartão seu, posso precisar de um advogado meteorologista...
-Tome. Espero que não me ligue para bebermos cerveja enquanto a chuva não passa no Centro do Rio...
Carla o abraça.
-Obrigada por ter me respeitado.
- Não fiz mais do que a obrigação.
-Quero saber mais sobre aquela nuvem, me explica mais tarde?
-Talvez, vai depender do tempo...
P.S.: Este conto está concorrendo ao "Contos do Rio". Sei que não devo ter esperanças, mas a moça da recepção do InfoGlobo disse: "Todos lançaram sua sorte"...