Oito da noite. Cinco de Abril. Rua da Carioca engarrafada. Extremamente engarrafada. “Ah, é só uma chuva, Praça da Bandeira enche um pouquinho, todo mundo para...”, pensa Max, na fila do ônibus. Espera. Meia hora, e parece que nada acontece, a não ser a idéia de pegar o metrô. “Não, cheio demais, vou esperar mais um pouco”.
-Desculpe, mas, você vai pro Grajaú?
-Eu gostaria, e você?
-Vou ficar antes do ponto final, Praça Verdun.
-Sei
-Você não acha melhor tentar um ônibus no Passeio Público? Acho melhor, do que esperar aqui só uma linha.
-Pode ser, vamos.
-Como você se chama?
-Carla, e você?
-Max, prazer. (Max estende a mão e Carla o cumprimenta). Vão caminhando com seus guarda-chuvas aparando as lágrimas do céu pelo Largo da Carioca.
-Eu tenho medo de ser assaltada, e você me parece uma pessoa confiável.
-Você diz isso pela minha aparência de “coroa” ou por causa do terno?
-As duas coisas, mas não trate a si mesmo de “coroa”...
-Você deve ter uns 20 e poucos anos, eu tenho 45. Errei sua idade ?
-Não muito, tenho 26. Caramba, olha o trânsito... O que você vai fazer?
-Procurar um bar para fazer hora, me acompanha?
Pararam num bar da Mem de Sá, beberam algumas cervejas, conversam sobre banalidades, observam o trânsito lento como uma procissão.
-Max, é meia-noite, o papo foi ótimo, mas vou tentar voltar pra casa.
Ônibus passam lotados como numa carreata dos desesperados.
-Carla, não vou pegar ônibus lotado. Não agüento imaginar ficar horas em pé.
-A idéia também não me agrada, mas o que vamos fazer?
-Vou procurar um hotel barato para descansar os ossos.
-Vou com você, mas claro, cada um num quarto.
-Cansou das minhas piadas?
-Não é isso, e você me entendeu.
-Ok, você venceu: cada um no seu ‘quadrado’, digo, quarto.
-O que você esperava? “Vamos juntos, meu coroa charmoso”?
-Só estava brincando, Carla, não sou um sátiro.
-Desculpe, é que todo homem é igual.
- Carla, eu não sei a extensão dessa enchente, não para de chover. Eu não estava pensando em um quarto para nós dois. Você não me conhece, não sabe mais que quatro horas da minha vida.
-Você está certo, desculpe...
-Vamos, aquele hotel ali.
Mal se aproximam, e o funcionário informa: - Só tem um quarto, cama de solteiro.
-Fique com ele, Carla, eu vou voltar para algum bar.
Carla pensa, pensa...
-Vai virar a madrugada bebendo?
O funcionário interrompe:
-A rádio informou que está um caos lá fora, tem gente andando quilômetros para chegar em casa.
Max decide, vira-se para Carla e diz:
-Você dorme na cama, eu durmo no chão
E para o funcionário do hotel:
-Você me arruma um colchonete?
-Posso lhe conseguir um cobertor extra, e o senhor usa como colchonete.
-Parece que é o jeito...
Max pega a chave, o ‘cobertor-colchonete’ e Carla parece olhar para ele com alguma ternura.
-Pensei que você iria preferir ficar bebendo.
Max não diz nada
Carla entra primeiro, Max em seguida, tira o paletó, transforma-o num travesseiro, arruma o cobertor no chão, deita-se. Carla o observa.
-Me desculpe pela situação
-Não há culpa, relaxe.
Carla se deita, sentindo compaixão daquele homem que pouco conhece.
-Max?
-Sim.
-Já está dormindo?
-Quase, se você deixar...
-Se você prometer que não vai abusar de mim pode deitar aqui do meu lado, de costas pra mim.
-Não, romântico demais isso.
-Deixe de ser bobo...
-Não deixo. Boa noite. Estamos exaustos demais para pieguices.
-Você é um homem especial, Max.
-Obrigado, mas sou apenas um homem comum, que tem idade para ser seu pai.
-Mas não você não é.
-Com certeza, não.
Carla se levanta, se deita atrás dele, e o abraça.
-O que você está fazendo?
-Isso te incomoda?
-Não, mas, por que não se deita na cama e dorme?
-Estou carente e com frio, só isso...
-Carla, eu tenho uma relação mal-resolvida, e não quero iniciar outra agora.
-Tudo bem, nesse momento só quero o seu calor.
-Mulheres...
Carla se levanta e volta pra cama.
Max se levanta, olha Carla nos olhos:
-Desculpe, não quis afirmar que você é egoísta.
-Eu entendi...
-Vamos fazer o seguinte: Você fica com o cobertor, eu vou embora.
-Não, não faz isso. Deita aqui do meu lado, vamos dormir.
-Tá...
Max se deita ao lado de Carla, ela coloca a cabeça em seu peito.
Conversam mais um pouco e adormecem. Ambos guardam seus sentimentos em alguma gaveta.
Carla acorda pelas 6 da manhã, liga a TV e descobre a extensão do caos.
-Max, acorde, mas, duvido que consiga trabalhar hoje.
-Anh, o quê ?
-Nosso prefeito disse para ficarmos em casa.
-Hã ?
-Isso mesmo.
-Bom vou ligar pro trabalho, se não houver expediente vou voltar pra casa, e você?
-O mesmo...
Tomam café, saem, e voltam para o Largo da Carioca. Encontram um sol tímido, e uma nuvem singular.
-Estranha essa nuvem, comenta Carla.
-É uma altocumulus.
-Como você sabe ?
-Estudei meteorologia, mas preferi ser advogado.
-Ela parece dizer que os tempos serão melhores.
-Tomara... Bom, vou pegar aquele ônibus, Carla. Obrigado pela paciência.
-Me dê um cartão seu, posso precisar de um advogado meteorologista...
-Tome. Espero que não me ligue para bebermos cerveja enquanto a chuva não passa no Centro do Rio...
Carla o abraça.
-Obrigada por ter me respeitado.
- Não fiz mais do que a obrigação.
-Quero saber mais sobre aquela nuvem, me explica mais tarde?
-Talvez, vai depender do tempo...
P.S.: Este conto está concorrendo ao "Contos do Rio". Sei que não devo ter esperanças, mas a moça da recepção do InfoGlobo disse: "Todos lançaram sua sorte"...
Outra que aprendi recentemente:
O Amor, que não existe, assim como não existe ônibus entre o Recreio e a Central do Brasil depois das 2 da manhã, às vezes existe. Pode ser por alguns dias, semanas, meses, anos. Mas pode acabar. E quando acaba a gente pode não estar preparado pra isso.
"Ah, larga de bobagem, ninguém merece seu sofrimento". Não se trata de merecimento, se trata de sentimento humano, de síndrome de privação. É dor de cotovelo, sim.
Você passou por isso, eu já passei por isso. Aliás, passando. Mas passa, dói, mas passa.
Só o ser humano tem dor de cotovelo. Já viu algum cachorro no bar bebendo uivando, chorando por causa daquela cachorra que o abandonou ?
É preciso rir para não chorar, mas a vida é assim. Os riscos. Quem não arrisca não petisca.
P.S.: Como estou irritado e estressado, não permitirei mais comentários anônimos.
Beijo do Velho
Os sentimentos humanos são tão complexos que até mesmo os psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, pais e mães-de-santo, padres, pastores evangélicos se confundem. Não há, e acho que não haverá uma definição cabal e absoluta.
O que eu percebo é que, NA MAIORIA DOS CASOS, não na totalidade, é que aquele que diz que ama na verdade está apaixonado. Amor, para mim, tem três "a":
1) Atração
2) Afeição
3) Afinidade
Na verdade 4, Amizade é ou seria a base disso tudo para que duas criaturas divergentes como homem e mulher permaneçam juntos.
O que eu vejo é (na maioria dos casos): "Eu a amo, mas ela não me entende", "Eu o amo, mas ele me critica", "Nós nos amamos mas vivemos brigando...".
Você vai dizer: "Cada qual com seu cada qual, que seja eterno enquanto dure". Perfeito ! Por isso acho que o relacionamento perfeito deve ser entre pessoas conscientes de si e do outro.
Não vou tecer receitas, cada um, ou cada par, que busque a sua. E se usarmos mais consciência, senso comum e empatia, o mundo será bem melhor.
Tem gente que diz que Amor verdadeiro só de mãe. Infelizmente, não se pode generalizar. Lí muito tempo atrás uma notícia de uma mãe (mãe ?) que deixava os filhos sem leite mas não ficava sem sua cachaça. Foi presa e as crianças encaminhadas para o Juizado.
Lendo, conversando, passando por experiências, cheguei à conclusão que o Amor das novelas, filmes, músicas não existe. É o que os autores, roteiristas, compositores gostariam que existisse. A vida real não é muito diferente da da era das cavernas.
O homem caça, e traz a caça para a mulher e o filhos. E procura ficar ligado para que o Ricardão Pithecantropus não venha visitar sua mulher... Praticamente (eu disse praticamente) não era Amor, era perpetuação e manutenção da espécie.
Hoje a mulher também caça, mas "anteontem" ela dependia primeiro dos pais, e depois do marido.
Diz uma amiga psicóloga que o que une um homem a uma mulher e vice-versa é a capacidade de amizade. O homem ama ? Talvez, se houverem valores semelhantes, atração e afeição mútuos. A mulher ama ? Depende. A mulher sente a necessidade de se sentir amada e, segundo a psicologia, ela quer o homem como "espelho" do seu auto-amor narcisístico. Ele me "ama" - eu me "amo".
Bom, salvo alguém me convença do contrário, desisti de acreditar no amor. Derrotismo ? Talvez. Muitas coisas pra resolver dentro e fora do meu cérebro.
Se é que ainda tenho um...